Polêmica do hino

O vereador negro Matheus Gomes (PSOL), que é historiador, recusou-se a cantar o hino do Rio Grande do Sul na posse dos eleitos em Porto Alegre. Foi cobrado pela vereadora branca Comandante Nádia (DEM). O hino, cuja música foi composta pelo maestro Mendanha, soldado imperial negro prisioneiro dos farrapos, adaptando valsa de Strauss, o velho, tem letra de um sujeito conhecido como Chiquinho da Vovó, que gostava de tiradas grandiosas como esta: “Que sirvam nossas façanhas de modelo a toda a toda Terra”. Ao mundo todo (Terra), a qualquer terra. Mendanha teria sido convencido a compor o hino do adversário, mudando compasso poderia acertar o passo e melhorar a sua situação. Aurélio Porto falava em “valsa de Strauss com compasso modificado”. Ferreira Rodrigues, farroupilhista apaixonado, relatou: “O que há de mais curioso no histórico desse hino, e parece-me que digo cousa que muito poucos sabem, é que a música não é original de Mendanha, porém plagiada, ou melhor, adaptada por ele”. Era mais uma gabolice?

      Chiquinho da Vovó cometeu um verso infame até hoje cantado a plenos pulmões não afetados pela Covid: “Povo que não tem virtude acaba por ser escravo”. Os relativistas por conveniência defendem o passado dizendo que eram os valores da época. Mas escravos sabiam da infâmia a que eram submetidos. Países aboliam a escravidão. No Brasil da época, não faltavam abolicionistas. Ou seja, era possível perceber a ignomínia da mais infame das instituições. Atribuir à falta de virtude dos escravizados a sua a condição era culpar a vítima.

Domingos José de Almeida, o famoso cérebro da revolução, teve pruridos em fazer um soldado do inimigo compor o hino do campo oposto. Escreveu: “Por cujo motivo, merecendo-me o mesmo Mendanha toda a contemplação e estima desejava que não fosse forçado a dar este passo, e só sim por vontade; por isso que me dirijo a ele nesta ocasião consultando sua vontade; e no caso que ele por vontade espontânea queira vir…” Mendanha achou de bom tom satisfazer a vontade alheia. Era infame que lhe pedissem tal coisa. Era inteligente não se furtar.

Ferreira Rodrigues explicou a origem do processo criativo de Mendanha: “O sr. Francisco de Paula Chaves Campello, que conhecia perfeitamente o hino revolucionário, por tê-lo ouvido tocar muitíssimas vezes por seu pai, o capitão farroupilha Manoel dos Santos Campello, ouvindo em um teatro da Europa uma valsa de Strauss (o velho), ficou surpreendido de notar semelhança entre ela e o hino. De volta ao Rio Grande, referiu o fato a seu pai, que lhe confirmou que Mendanha havia aproveitado uma valsa para fazer o hino, mudando apenas o compasso”. A liberdade popular dizia que o verdadeiro hino da revolução tinha outra letra: “Senhor Neto, vá-se embora/Não se meta a capadócio/Vá cuidar dos parelheiros,/Que fará melhor negócio”. Era o que ironizava o Dr. Assis Brasil para fúria de José Gabriel Teixeira, que dizia ser essa chacota um lamentável plágio de Mozart.

O problema do hino não é a música ter sido adaptada de uma valsa, o que pode ser considerado como uma intervenção pós-moderna precoce, embora o músico Assis Brasil diga ser impossível passar de um ritmo ternário a um binário, mas o preconceito da letra de louvor a um movimento que se atolaria no episódio de Porongos e ainda assim, mesmo sem prever a extinção da escravidão no projeto de Constituição redigido em Alegrete (“Art. 6.° – São cidadãos rio-grandenses: I – Todos os homens livres nascidos no território da República”), seria visto por seus apaixonados como abolicionista. Afinal, o lema da revolução era “liberdade, igualdade e humanidade”. Gomes não cantou. Eu, branco, também não canto. Nádia pode apenas ter jogado para a sua plateia. Espera colher votos em 2022. A polêmica em torno do hino do Rio Grande do Sul não é nova. Matheus Gomes, com seu gesto, deu-lhe novo e necessário destaque. O passado não se escondo do presente.